A inteligência artificial (IA) transformou o mercado financeiro nos últimos anos, impulsionando empresas de tecnologia a patamares históricos. No entanto, um novo movimento começa a ganhar corpo entre os grandes gestores globais: a busca por ativos reais. Esse fenômeno, batizado de Efeito HALO (High Assets, Low Obsolescence), está redirecionando o fluxo de capital para empresas com ativos físicos robustos e baixo risco de serem substituídas por algoritmos.
Neste cenário, o Brasil se destaca. Com uma bolsa historicamente focada em commodities, energia e infraestrutura, o mercado brasileiro oferece o que os investidores agora chamam de “porto seguro” contra a obsolescência tecnológica. Mas o que exatamente é esse conceito e quais são as 10 ações que podem surfar essa onda?

O que é o Efeito HALO?
O termo HALO é uma sigla em inglês para High Assets, Low Obsolescence (Altos Ativos, Baixa Obsolescence). Ele descreve empresas que possuem infraestrutura física pesada, como redes de transmissão de energia, minas de minério, ferrovias ou plantas industriais complexas.
A lógica é simples: enquanto um software de escrita ou programação pode ser substituído por uma versão mais eficiente de IA em questão de meses, uma rede de saneamento básico ou uma plataforma de petróleo não pode ser “digitalizada” a ponto de deixar de existir. A barreira de entrada nesses setores é o capital físico e a regulação, não apenas o código.
A Mudança de Paradigma: Do Digital para o Físico
Nos últimos cinco anos, o mercado premiou o modelo asset light (poucos ativos). Empresas que cresciam apenas com software e escalabilidade digital eram as favoritas. Contudo, a rápida evolução da IA gerou um temor: se a tecnologia reduzir drasticamente o custo de criação de softwares, as margens de lucro dessas empresas podem desabar devido à concorrência desenfreada.
O Efeito HALO surge como um antídoto a essa incerteza. Investidores estão voltando para o básico, priorizando empresas que “colocam a mão na massa” e possuem ativos que a IA não pode replicar.
Por que o Brasil é o Destino Ideal para a Estratégia HALO?
Segundo relatórios recentes de instituições como o Santander, o Brasil possui uma das melhores combinações de “pontuação HALO” e múltiplos de avaliação atraentes. Diferente da Nasdaq, composta majoritariamente por tecnologia, a B3 é rica em setores “pé no chão”.
Os setores de Utilities (serviços públicos como energia e água), Materiais Básicos e Energia possuem barreiras regulatórias e de capital tão altas que a automação cognitiva da IA atua mais como uma ferramenta de ganho de eficiência do que como uma ameaça existencial.
Para entender melhor como montar uma carteira resiliente, é fundamental analisar os fundamentos de análise fundamentalista, que ajudam a identificar o valor real por trás dos ativos físicos de uma companhia.
As 10 Ações Brasileiras “Pé no Chão” Selecionadas
Com base na tese HALO, dez empresas brasileiras foram destacadas por sua capacidade de resiliência e geração de valor através de ativos tangíveis. Abaixo, detalhamos cada uma delas:
1. Vale (VALE3)
A gigante da mineração é o exemplo clássico de ativos altos e baixa obsolescência. O minério de ferro é essencial para a infraestrutura global e a transição energética. A IA pode otimizar a logística da Vale, mas nunca substituirá a necessidade física do aço.
2. Aura Minerals (AURA33)
Focada em ouro e metais básicos, a Aura possui ativos minerais que servem como reserva de valor. Metais preciosos, tal como Ouro, prata continuam sendo a proteção definitiva contra a inflação e incertezas tecnológicas.
3. Prio (PRIO3)
A Prio foca na revitalização de campos maduros de petróleo. Seus ativos são plataformas e infraestrutura de extração física. Enquanto o mundo precisar de energia líquida, a infraestrutura da Prio terá um papel crucial, protegida por altos custos de entrada.
4. Brava Energia (BRAV3)
Fruto da fusão entre 3R Petroleum e Enauta, a Brava consolida ativos de exploração e produção. É uma tese de valor baseada em reservas provadas de óleo e gás, ativos que exigem bilhões em investimento e décadas para serem desenvolvidos.
5. Copasa (CSMG3)
O setor de saneamento é talvez o mais imune à IA. A infraestrutura de coleta e tratamento de água é física, local e essencial. A regulação do setor de saneamento no Brasil também cria uma camada extra de proteção para os investidores de longo prazo.
6. Orizon (ORVR3)
Líder em tratamento de resíduos, a Orizon transforma lixo em energia e créditos de carbono. Seus ativos são aterros sanitários e plantas de biogás. É um negócio de “tijolo e cimento” com uma pegada ambiental moderna.
7. Axia (AXIA3)
A Axia atua em setores de infraestrutura e serviços que demandam presença física constante. A tese aqui é a perenidade dos contratos e a dependência de ativos de difícil replicação.
8. Cyrela (CYRE3)
O setor imobiliário de alta renda depende de terrenos premium e construção civil. A IA pode ajudar no design, mas a valorização imobiliária está ligada à escassez de terra e qualidade construtiva física.
9. Direcional (DIRR3)
Focada no segmento popular, a Direcional possui uma máquina de construção altamente eficiente. A necessidade de habitação no Brasil é um problema físico que exige soluções físicas, garantindo a demanda pelos ativos da companhia.
10. Vivo (VIVT3)
Embora seja uma empresa de tecnologia, a Vivo é, no fundo, uma empresa de infraestrutura. Suas torres, cabos de fibra ótica e espectro de frequência são ativos físicos massivos que permitem que a própria IA funcione. Sem a infraestrutura da Vivo, o mundo digital para.
Riscos e Considerações da Estratégia
Nenhuma tese é isenta de riscos. O principal desafio para o Efeito HALO é uma possível “desinflação tecnológica” tão potente que torne os ativos físicos menos valiosos. Se a IA aumentar a produtividade de forma que o custo de novas infraestruturas caia drasticamente, as barreiras de entrada atuais podem ser ameaçadas.
Além disso, o cenário de juros é crucial. Empresas HALO costumam ser intensivas em capital e podem sofrer em ambientes de juros altos por longos períodos. É vital acompanhar o calendário econômico e as decisões do COPOM para entender o custo do capital que financia esses ativos gigantescos.
Conclusão
O Efeito HALO marca um retorno à prudência. Em um mundo fascinado por promessas digitais, as 10 ações mencionadas lembram o investidor de que a economia real — aquela que produz energia, água, minério e moradia — continua sendo a base de qualquer portfólio resiliente. Se você busca fugir da volatilidade extrema das “bolhas” tecnológicas, olhar para ativos físicos no Brasil pode ser a estratégia mais sensata para os próximos anos.



