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Por que a recuperação do Bradesco (BBDC4) ainda divide analistas?

No universo dos investimentos em renda variável, poucas coisas testam mais a paciência do acionista do que uma tese de turnaround (virada) que demora a engrenar. O Bradesco (BBDC4), uma das instituições financeiras mais tradicionais do país, encontra-se exatamente neste ponto de inflexão. Após a divulgação dos resultados do quarto trimestre de 2025 e, crucialmente, do guidance para 2026, a mensagem do mercado foi clara: a direção está correta, mas a velocidade da recuperação ainda frustra as expectativas mais otimistas.

Como Editor-Chefe do Rádio Renda Mensal, analisei profundamente os relatórios das últimas 72 horas para dissecar o que, de fato, está acontecendo na Cidade de Deus e o que o investidor de longo prazo deve fazer com essas informações.

2025: O Ano da Estabilização e Credibilidade

Por que a recuperação do Bradesco (BBDC4) ainda divide analistas?

Antes de olharmos para o futuro, é justo reconhecer o feito da gestão liderada por Marcelo Noronha. O banco conseguiu entregar o que prometeu. Segundo informações do NeoFeed, o Bradesco atingiu ou superou todos os pontos do guidance de 2025. Isso não é trivial. Vínhamos de um período onde a volatilidade dos resultados minava a confiança institucional. Cumprir as metas confere à diretoria o benefício da dúvida e restaura a credibilidade necessária para a implementação de mudanças estruturais.

Os números do 4T25 corroboram essa visão. O lucro líquido recorrente de R$ 6,5 bilhões superou o consenso da Bloomberg (R$ 6,3 bilhões), conforme destacado pelo Investidor10. Mais importante que o lucro nominal foi a dinâmica da Margem Financeira Bruta, que cresceu 13,2% em 12 meses. Isso indica que a “máquina de crédito” voltou a girar, especialmente no varejo, com a inadimplência sob controle.

O “Banho de Água Fria” do Guidance 2026

Se o retrovisor mostra melhora, o para-brisa ainda exibe neblina. O mercado financeiro, por natureza antecipador de fluxos, reagiu com frieza às projeções para 2026. O ponto central da discórdia reside na velocidade da expansão da rentabilidade.

Um relatório do UBS-BB, assinado por Thiago Batista, resume bem o sentimento: guidance morno. O banco suíço esperava um lucro de R$ 29 bilhões para 2026, mas a projeção oficial do Bradesco ficou em R$ 27,5 bilhões (no ponto médio). Para um mercado que precifica o futuro, essa diferença de R$ 1,5 bilhão é significativa.

O Peso das Despesas Operacionais

A grande âncora que impede o Bradesco de voar mais alto no curto prazo tem nome: despesas operacionais. O guidance aponta um crescimento de gastos entre 6% e 8%, acima da inflação projetada. Em tempos onde a palavra de ordem é “eficiência”, ver despesas subindo gera desconforto.

A justificativa da gestão é plausível, mas dolorosa: o investimento massivo em Tecnologia da Informação (TI) e digitalização é inadiável. O Bradesco está correndo atrás do prejuízo para modernizar sua infraestrutura legada e competir com fintechs e com o líder do setor, o Itaú. Contudo, como investidores, sabemos que o capex de hoje é a depreciação de amanhã, e o mercado teme que esses investimentos demorem a se traduzir em uma redução real do índice de eficiência.

Rentabilidade (ROE): O Abismo da Eficiência

Para o investidor focado em fundamentos, o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) é a métrica rainha dos bancos. Aqui reside o maior desafio do Bradesco. Analistas do JP Morgan revisaram suas projeções e estimam que a rentabilidade deve “emperrar” em torno de 15,5% a 17% ao final de 2026.

Embora o banco tenha voltado a superar seu custo de capital (o que significa que voltou a gerar valor real ao acionista), um ROE de 17% ainda é pálido quando comparado aos patamares acima de 20% entregues pelo seu principal par privado. O mercado cobra uma aceleração drástica, mas o plano “step by step” (passo a passo) da diretoria sugere que a convergência para um ROE de 20% é um sonho para 2027 ou além.

Nem Tudo São Espinhos: A Força da Gestão de Ativos

Em meio às críticas sobre o varejo e eficiência, é vital não ignorar as joias da coroa. O Bradesco provou, mais uma vez, a resiliência de suas verticais de serviços. O banco foi eleito o melhor gestor de fundos de 2026 pela FGV, conquistando o primeiro lugar no ranking “Melhor Banco para Investir”.

Isso é crucial para a tese de longo prazo por dois motivos:

  1. Diversificação de Receita: Mostra que o banco não depende apenas de spread bancário. As receitas de serviços (taxas de administração, performance) são menos voláteis e ajudam a segurar o resultado em tempos de crédito difícil.
  2. Cross-Selling: Uma gestão de ativos premiada é um ímã para clientes de alta renda (Prime e Private), segmento onde o Bradesco busca ampliar sua participação para melhorar a qualidade de sua carteira de crédito.

O Veredito para o Investidor

Diante deste cenário misto, qual deve ser a postura do investidor de longo prazo, focado em renda e valor?

1. Ações (BBDC3/BBDC4): Paciência ou Venda?
O Bradesco negocia a múltiplos historicamente descontados, abaixo de seu valor patrimonial em diversos momentos recentes. O pessimismo com o guidance de 2026 pode manter as ações lateralizadas no curto prazo. No entanto, para quem tem horizonte de 3 a 5 anos, o banco oferece uma assimetria positiva. O risco de uma nova derrocada diminuiu (a “limpeza” da carteira parece ter acabado), e o lucro de R$ 27,5 bilhões, embora “morno” para o consenso, garante um payout de dividendos robusto.

2. Dividendos e JCP:
Com a projeção de lucro estabilizada e crescente, o fluxo de proventos deve se manter atrativo. O investidor de renda passiva deve encarar o Bradesco hoje como uma “vaca leiteira” em recuperação: não espere uma valorização explosiva da cota (como numa tech), mas conte com a regularidade dos proventos mensais e bonificações.

3. O Fator Macro:
Com a Selic ainda em patamares restritivos, o custo de captação dos bancos permanece alto, mas a inadimplência controlada permite a expansão da margem. O Bradesco está se posicionando para capturar a melhora do ciclo de crédito, mas o investidor deve monitorar de perto a linha de despesas. Se o crescimento dos gastos operacionais não arrefecer até o meio de 2026, a tese de investimento pode ser seriamente questionada.

Conclusão

O mercado pede pressa, e tem razão em pedir. Porém, a gestão do Bradesco optou pela consistência em detrimento da velocidade. O guidance de 2026 é um banho de realismo: a reestruturação de um gigante bancário não acontece em trimestres, mas em anos. Para o acionista, o momento exige frieza. O banco não está “quebrado” ou em declínio terminal; está em uma obra pesada de modernização.

Se você busca adrenalina e retornos rápidos, BBDC4 não é seu papel agora. Mas se você busca acumulação de patrimônio com preços de entrada razoáveis e foco em dividendos futuros, o ceticismo exagerado do mercado pode estar abrindo uma janela de oportunidade – desde que você tenha estômago para esperar a reforma da casa terminar.

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