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Inadimplência Brasileira bate Recorde: Por que o Brasileiro não paga as contas em DIA?

O Cenário Macroeconômico e o Bolso do Investidor

Hoje, precisamos ter uma conversa franca, técnica, mas absolutamente necessária sobre a estrutura atual da nossa economia e como ela está corroendo, silenciosamente, as margens de lucro de empresas que, muito provavelmente, estão na sua carteira de investimentos.

Vivemos um momento que economistas clássicos chamariam de “anomalia” ou, no mínimo, um grande paradoxo. Tradicionalmente, a inadimplência (o calote) caminha de mãos dadas com o desemprego. A lógica é simples: se o cidadão perde a renda, ele deixa de pagar o cartão de crédito, o financiamento do carro e o crediário da loja. No entanto, o Brasil de 2026 nos apresenta um cenário divergente e preocupante.

A Notícia que Abalou o Mercado

Dados recentes apontam que, apesar de termos índices de desemprego controlados, o volume de famílias endividadas e inadimplentes atingiu patamares históricos. Este cenário é uma ressaca direta da política monetária restritiva do ano anterior. A matéria destaca que novos dados indicam que o alto patamar da taxa Selic ao longo de 2025 levou o endividamento das famílias a níveis históricos. Analistas monitoram o impacto disso no consumo e nos balanços de varejistas.

Mas o que isso significa na prática? Significa que o remédio amargo para controlar a inflação (os Juros Altos) cumpriu seu papel de esfriar os preços, mas gerou um efeito colateral grave: o encarecimento do custo da dívida passada.

Inadimplência Brasileira


A Mecânica da Dívida: Por que o Emprego não é suficiente?

Para o investidor iniciante, pode parecer confuso. “Se as pessoas estão trabalhando, por que não pagam?”

A resposta reside no conceito de Comprometimento de Renda. O brasileiro médio, culturalmente acostumado ao parcelamento, viu os juros do rotativo do cartão e do cheque especial escalarem ao longo de 2025 acompanhando a Selic. Mesmo mantendo o emprego, o salário nominal do trabalhador não cresceu na mesma velocidade que os juros compostos de suas dívidas.

Imagine um cenário hipotético, mas realista:

  • O indivíduo ganha R$ 3.000,00.
  • Em 2024, ele gastava R$ 500,00 pagando dívidas.
  • Com a rolagem da dívida a juros altos em 2025, essa parcela subiu para R$ 1.200,00.
  • A inflação de serviços (aluguel, escola, saúde) consumiu o restante.

Resultado: O cidadão é “trabalhador pobre“. Ele tem renda, mas não tem liquidez. Ele escolhe o que pagar. E, geralmente, as dívidas bancárias e de varejo ficam por último, atrás da conta de luz e da comida.

Impacto Setorial: Onde o Investidor deve ter Cautela

Agora, vamos traduzir isso para a sua carteira de ações e Fundos Imobiliários. A inadimplência recorde não é apenas um problema social; é um problema de Balanço Patrimonial das empresas listadas na B3.

1. O Setor de Varejo (Magazine Luiza, Casas Bahia, Lojas Renner)

Este é o setor mais exposto. O varejo brasileiro depende visceralmente do crédito. Se o consumidor está com o “nome sujo” ou com o cartão estourado, ele não compra a geladeira nova, não troca de celular e não compra roupas novas parceladas.

Além disso, muitas dessas varejistas operam como “bancos”, oferecendo seus próprios cartões (Branded Cards). Quando o cliente não paga a fatura da loja, a varejista sofre duplamente: deixa de vender o produto e ainda toma prejuízo na operação financeira. Esperem balanços trimestrais com aumento na linha de Provisão para Devedores Duvidosos (PDD), o que drena o Lucro Líquido.

2. O Setor Bancário (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil)

Os “bancões” são resilientes. Eles ganham dinheiro com o spread (diferença entre o que pagam para captar dinheiro e o que cobram para emprestar). Com juros altos, o spread aumenta. Porém, o risco de calote obriga os bancos a serem mais seletivos. Eles fecham a torneira do crédito.

Para o investidor, o sinal amarelo acende nos bancos digitais e instituições menores, que muitas vezes possuem uma base de clientes de maior risco. Nos grandes bancos, o impacto vem na forma de lucros menores do que o esperado devido às provisões de segurança. O dividendo pode não crescer tanto quanto gostaríamos.

3. Fundos Imobiliários de Papel (Recebíveis)

Atenção máxima aqui. Os FIIs de Papel (High Yield) que investem em CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) atrelados a riscos corporativos ou pulverizados podem sofrer. Se a inadimplência na ponta aumenta, o risco de default nos CRIs sobe. É hora de privilegiar fundos High Grade (menor risco, devedores de primeira linha), mesmo que paguem um dividend yield ligeiramente menor.

Inadimplência Brasileira bate Recorde: Por que o Brasileiro não paga as contas em DIA?

A Estratégia do Investidor em Tempos de Inadimplência

Diante da leitura crítica dos dados trazidos pela Folha de S.Paulo, qual deve ser a sua postura?

  1. Defensiva na Renda Variável: Evite exposição excessiva a empresas de varejo discricionário (que vendem itens não essenciais) e empresas altamente alavancadas. Em tempos de juros altos e inadimplência, “Cash is King” (Caixa é Rei). Empresas com muito caixa e pouca dívida sobrevivem e até compram concorrentes quebrados.
  2. Foco na Qualidade do Crédito: Se você investe em Renda Fixa privada (Debêntures, CRIs, CRAs), olhe o rating da emissão. Não se deixe seduzir apenas pela taxa (CDI + 4%, CDI + 5%). O risco de calote é real e atual.
  3. Setores Perenes: Setores como Seguros, Energia Elétrica e Saneamento sofrem muito menos com a inadimplência do consumidor final, pois são serviços essenciais e, no caso de energia e água, o corte do serviço força o pagamento rápido.

Conclusão: O Ciclo Econômico e a Paciência

O mercado financeiro é cíclico. A inadimplência recorde de hoje é o resultado dos excessos e das necessidades de ajuste de ontem. Para o Brasil voltar a crescer de forma sustentável, será necessário um processo de “desalavancagem” das famílias. Isso leva tempo. Pode levar o ano de 2026 inteiro.

Para nós, investidores do Rádio Renda Mensal, o momento pede serenidade. Não é hora de movimentos bruscos ou de tentar “acertar o fundo” das ações de varejo achando que estão baratas. Muitas vezes, o que parece barato pode ficar ainda mais barato se a empresa não tiver fôlego financeiro para atravessar o deserto da inadimplência.

Mantenha seus aportes constantes, privilegie a qualidade em detrimento da promessa de retornos exorbitantes e lembre-se: o lucro do seu investimento vem da capacidade da economia real de gerar valor. Se a economia real está endividada, a cautela é a melhor conselheira.

Fiquem atentos aos próximos balanços e continuem acompanhando nossas análises.

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