O preço do frango registrou um recuo significativo na segunda quinzena de abril, consolidando um momento de ajuste técnico no mercado de proteínas animais no Brasil. De acordo com dados recentes do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o setor de avicultura interrompeu uma sequência de três semanas consecutivas de alta, refletindo uma mudança na dinâmica de consumo interno.”
Essa movimentação é um reflexo direto do enfraquecimento típico da demanda doméstica neste período do mês. Tanto o animal vivo quanto a carne processada sentiram o impacto de um consumo interno mais contido, o que desafia a sustentação dos preços mesmo em um cenário onde a oferta de aves está considerada relativamente ajustada.
Para quem acompanha o agronegócio e o mercado de capitais, essa flutuação é um indicador vital. Ela revela como o poder de compra do consumidor final dita o ritmo de escoamento da produção, sobrepondo-se, em momentos de baixa liquidez, até mesmo aos custos de produção elevados.

O comportamento do mercado interno e o consumo das famílias
A segunda quinzena do mês é, tradicionalmente, um período de menor liquidez no varejo. Com o orçamento das famílias mais apertado antes da chegada da massa salarial do mês seguinte, a velocidade das compras domésticas diminui consideravelmente.
Essa dinâmica sazonal força os frigoríficos a ajustarem suas tabelas de forma estratégica. Para evitar o acúmulo de estoques de produtos resfriados, os preços cedem para estimular a saída da mercadoria. O fator predominante agora não é a falta de produto, mas a incapacidade do consumidor de absorver novos reajustes.
É uma balança de precisão: se a ponta consumidora retrai, o preço na origem precisa ceder. O preço do frango atua como a variável de ajuste para manter o fluxo operacional da cadeia produtivo-comercial em dia, evitando gargalos logísticos.
A queda no preço do animal vivo e a oferta ajustada
Nas principais regiões produtoras, como no estado de São Paulo, a desvalorização foi nítida. O frango vivo, benchmark do setor, encontrou resistência após as altas do início do mês. Pesquisadores do Cepea indicam que, embora o ritmo de abates esteja menor — o que mantém a oferta sob controle —, isso não foi suficiente para impedir a queda diante da demanda fraca.
Muitos avicultores optaram por negociar lotes com margens mais estreitas. O objetivo principal é garantir o giro e evitar que as aves ultrapassem o peso ideal de abate, o que elevaria o consumo de ração e o custo por quilo produzido, prejudicando a rentabilidade final.
Exportações batem recorde e equilibram o mercado
Se o cenário interno é de cautela, o braço externo da avicultura brasileira demonstra uma força impressionante. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a média diária de exportação de carne de frango in natura nos primeiros 12 dias úteis de abril atingiu 22,6 mil toneladas.
Esse volume representa uma alta de 6,1% em relação à média diária de março de 2026 e um avanço de 3% frente ao mesmo período de 2025. Esse desempenho recorde nas exportações é o que impede uma queda ainda mais drástica nos preços internos, ao enxugar o excedente de produção.
Para acompanhar o desempenho detalhado dos embarques e novos acordos internacionais, vale consultar o portal oficial da Embrapa Suínos e Aves, referência técnica absoluta para o setor.
O impacto dos custos de produção e a estabilidade dos grãos
Não podemos observar a queda do preço do frango sem monitorar os insumos. O milho e o farelo de soja continuam sendo os pilares da rentabilidade. Recentemente, o mercado foi impulsionado pelo repasse desses custos ao consumidor, mas o limite desse repasse parece ter sido atingido em abril.
Se o preço de venda cai enquanto o custo da ração sobe, a margem líquida é esmagada, afetando a saúde financeira de produtores e empresas listadas na B3. Nesse cenário, a busca por eficiência nutricional torna-se estratégica, com o uso de subprodutos que otimizam o caixa. Um exemplo claro dessa evolução é o uso do DDG de milho na pecuária, que vem redefinindo a rentabilidade e os padrões ESG ao transformar o processamento de grãos em uma vantagem competitiva para a nutrição animal.”
Felizmente, a estabilidade relativa nos preços dos grãos tem dado um fôlego extra ao produtor. Essa previsibilidade nos custos permite que as granjas suportem as oscilações negativas da segunda quinzena sem comprometer severamente a solvência do negócio.
Perspectivas para maio: Recuperação ou cautela?
O que esperar para o próximo mês? Agentes do setor consultados pelo Cepea projetam uma possível recuperação nos preços. A expectativa está ligada à entrada dos salários, que historicamente impulsiona o consumo nos primeiros dez dias de maio.
Entretanto, parte do mercado demonstra cautela. Como os preços já vieram de uma sequência de altas nas semanas anteriores, a capacidade do consumidor de aceitar novos aumentos é limitada. A retomada dependerá exclusivamente da força da demanda doméstica.
Para dados oficiais sobre políticas agrícolas e balança comercial, o site do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é a fonte primária para o acompanhamento de metas e estatísticas do setor.
Mãe, trader e apaixonada por mercado financeiro. Vanessa Souza trilhou um caminho autodidata no mundo dos investimentos e transformou esse aprendizado em jornalismo financeiro acessível. Acompanha diariamente a B3, analisa FIIs, ações e dividendos, e escreve para quem quer fazer o dinheiro trabalhar por si mesmo.




