O setor da construção civil no Brasil encerrou o ano de 2025 com um cenário de contrastes marcantes. De um lado, o mercado de trabalho demonstrou uma força impressionante, atingindo níveis de ocupação que não eram vistos há mais de uma década. Do outro, o peso dos juros elevados e a escalada nos custos de insumos e mão de obra criaram um ambiente de cautela para investidores e construtoras.
Neste artigo, vamos analisar detalhadamente o balanço apresentado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), as disparidades regionais nos custos de materiais e o que esperar para o setor em 2026, com a projeção de crescimento de 2%.
O Motor do Emprego: A Força do Mercado de Trabalho
Um dos dados mais robustos de 2025 foi a taxa de desemprego no Brasil, que atingiu o patamar histórico de 5,1%. Esse aquecimento refletiu diretamente no canteiro de obras. Com cerca de 103 milhões de pessoas ocupadas no país e um rendimento médio real de R$ 3,6 mil, a demanda por habitação e infraestrutura manteve-se resiliente.
O número de trabalhadores com carteira assinada especificamente na construção civil cresceu 3,08%, alcançando a marca de 2,9 milhões de profissionais. Em determinados meses de 2025, o setor chegou a superar os 3 milhões de postos formais, consolidando o sexto ano consecutivo de expansão na geração de vagas.

Desafios de Gestão e Escassez de Qualificação
Apesar do saldo positivo, houve uma desaceleração no ritmo de contratações (queda de 19,5% em relação a 2024). Especialistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que o custo do trabalhador qualificado tornou-se um problema estrutural. A construção civil hoje compete por talentos e oferece um dos maiores salários médios de admissão do país (R$ 2.294), o que pressiona as margens de lucro das empresas.
A Pressão dos Custos e a Inflação do Setor
O custo da construção subiu 5,9% em 2025, superando a inflação oficial (IPCA), que ficou em 4,26%. O grande vilão não foi apenas o material, mas a mão de obra, que registrou uma alta de quase 9%.
Disparidades Regionais no Preço dos Insumos
O comportamento dos preços de materiais como cimento e aço variou drasticamente entre as regiões brasileiras:
- Região Sul: Liderou a alta nacional, impulsionada pelo cimento (+8,4%) e pelo fio de cobre, que disparou 19,5%.
- Região Nordeste: O destaque negativo foi o cimento, com aumento de 11,9%. Por outro lado, a região voltou a ser protagonista na criação de vagas formais.
- Norte e Centro-Oeste: Apresentaram um cenário mais favorável, com deflação em itens importantes como o ferro e o fio de cobre.
Para entender melhor como esses índices impactam o valor final dos imóveis, vale consultar o Índice Nacional de Custo de Construção (INCC) da FGV, que é o principal termômetro do setor.
O Papel do Crédito e o Impacto da Selic
O cenário macroeconômico de juros altos (Taxa Selic) foi o principal gargalo para o financiamento imobiliário em 2025. O crédito com recursos da poupança (SBPE) sofreu uma retração de 13%. Em contrapartida, o FGTS salvou o ano, com uma alta de 8,75% nas operações, sustentando principalmente o segmento de habitação popular.
A expectativa para 2026 está ancorada no início de um ciclo de queda nos juros. De acordo com o Banco Central do Brasil, a redução das taxas é fundamental para baratear o crédito imobiliário e estimular novos lançamentos.
Infraestrutura: O Protagonismo do Capital Privado
Em 2025, os investimentos em infraestrutura somaram R$ 280 bilhões. Um dado relevante é que 84% desse montante veio da iniciativa privada. Isso mostra que, apesar das incertezas fiscais, o setor de concessões e saneamento continua atraindo investidores de longo prazo.
Para quem acompanha o mercado financeiro, é possível ver esse reflexo no desempenho dos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) listados na B3, que monitoram de perto o ciclo da construção civil.
O Que Esperar de 2026?
A projeção da CBIC de 2% de crescimento para 2026 é otimista, mas condicionada. O setor depende de três fatores cruciais:
- Redução Consistente da Selic: Para destravar o consumo das famílias de classe média.
- Continuidade do Minha Casa, Minha Vida: Fundamental para manter o volume de obras no Nordeste e Sudeste.
- Equilíbrio Fiscal: Para evitar novos picos no custo dos insumos dolarizados.
A construção civil continua sendo o termômetro da economia brasileira. Quando o setor cresce, ele arrasta consigo uma cadeia de fornecedores que vai da mineração ao varejo de tintas. A resiliência demonstrada em 2025, mesmo sob pressão, sugere que o setor está pronto para acelerar assim que o horizonte financeiro clarear.
Para investidores interessados em análise técnica e indicadores econômicos mais profundos, o portal do IBGE oferece dados detalhados sobre a Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC).



