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Por que Itaú e Bradesco Voltaram ao Radar de Wall Street

O Cenário Macro e a Resiliência do Sistema Financeiro Nacional

O mercado de capitais brasileiro vive um momento de inflexão crítica, onde a economia real e a performance dos ativos financeiros nunca foi tão evidente. No centro deste furacão, encontram-se as instituições financeiras de grande porte como o Itaú e o Bradesco, que historicamente serviram como portos seguros para investidores em busca de solidez e dividendos, mas que nos últimos trimestres enfrentaram uma tempestade perfeita de juros altos e inadimplência crescente.

A taxa Selic, instrumento primário de política monetária do Banco Central para controle da inflação, permaneceu em patamares restritivos por um período prolongado, drenando a liquidez das famílias e pressionando as margens de crédito dos bancos. Este cenário macroeconômico adverso testou severamente a qualidade das carteiras de crédito, forçando as instituições a aumentarem suas Provisões para Devedores Duvidosos (PDD), o que impactou diretamente o lucro líquido e, consequentemente, a atratividade de suas ações.

No entanto, a narrativa está mudando. O mercado, que opera sempre antecipando movimentos futuros, começou a precificar uma recuperação robusta na qualidade dos ativos e na rentabilidade dos maiores bancos privados do país: Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4). Não se trata apenas de uma especulação infundada, mas de uma leitura técnica baseada na melhoria gradual dos índices de inadimplência e na capacidade dessas instituições de reprecificar suas carteiras de crédito.

O pessimismo exagerado que pairava sobre o setor, especialmente sobre o Bradesco após resultados decepcionantes em 2023, parece estar dando lugar a um otimismo cauteloso, mas fundamentado. Grandes casas de análise internacional, como o Goldman Sachs, estão revisando suas teses, sinalizando que o ‘fundo do poço’ operacional pode ter ficado para trás. Este artigo mergulha profundamente nas razões por trás dessa mudança de sentimento, analisando métricas fundamentais e o impacto direto na sua carteira de investimentos.

ANÁLISE DETALHADA: A Virada de Chave de Wall Street

A Mudança de Percepção do Goldman Sachs e o Impacto no Setor

A recente movimentação dos analistas de Wall Street não é um evento isolado, mas um sinalizador potente de fluxo de capital. Quando uma instituição do calibre do Goldman Sachs altera suas recomendações, o mercado global escuta. Especificamente, a mudança de postura em relação ao Bradesco, elevando a recomendação de ‘venda’ para ‘neutro’, e a manutenção do otimismo com o Itaú, refletem uma análise de que o pior momento do ciclo de crédito já foi absorvido pelos balanços.

O Itaú e Bradesco têm recomendação elevada antes de divulgarem balanços, um movimento estratégico que visa capturar a valorização pré-resultados. A lógica por trás dessa revisão é multifacetada. Primeiro, há o reconhecimento de que o valuation (avaliação de preço justo) dos bancos brasileiros atingiu níveis historicamente baixos. O índice P/L (Preço sobre Lucro), que mede quantos anos o investidor levaria para recuperar o capital investido através dos lucros da empresa, encontra-se, em muitos casos, abaixo da média histórica de 10 anos, sugerindo que as ações estão descontadas.

Bradesco: O Desafio da Recuperação da Rentabilidade

O caso do Bradesco é emblemático para entender o ciclo atual. O banco sofreu desproporcionalmente devido à sua maior exposição ao varejo de baixa renda e às Pequenas e Médias Empresas (PMEs), segmentos mais sensíveis às oscilações da taxa Selic e à inflação (medida pelo IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). A alta inadimplência obrigou o banco a ser conservador, restringindo a originação de novo crédito e limpando o balanço. No entanto, a elevação de recomendação sugere que os analistas acreditam que a ‘limpeza’ está próxima do fim. O foco agora se volta para o ROE (Return on Equity, ou Retorno sobre o Patrimônio Líquido).

O Bradesco, que historicamente entregava ROEs na casa dos 18-20%, viu esse indicador despencar. A aposta do mercado, corroborada pelas fontes citadas, é de uma convergência gradual de volta a patamares mais saudáveis. Embora o caminho seja longo, o preço atual da ação já desconta um cenário excessivamente negativo que pode não se concretizar, oferecendo uma margem de segurança para o investidor que entra agora.

Itaú Unibanco: A Excelência Operacional como Norma

Em contraste com a volatilidade do Bradesco, o Itaú Unibanco consolidou-se como o ‘banco premium’ do setor. Sua capacidade de navegar por águas turbulentas mantendo um ROE superior a 20% é vista como um diferencial competitivo formidável. A gestão de risco do Itaú provou-se superior, com uma carteira de crédito mais defensiva e uma diversificação de receitas que inclui serviços, gestão de fortunas e operações na América Latina. Para os analistas, a recomendação de compra no Itaú é quase consensual devido à previsibilidade de seus resultados. Enquanto o Bradesco é uma tese de ‘turnaround’ (recuperação), o Itaú é uma tese de ‘quality‘ (qualidade) e ‘compounding‘ (crescimento composto). Mesmo com a recomendação elevada, o banco ainda apresenta potencial de valorização (upside), especialmente se a economia brasileira voltar a crescer, impulsionando a demanda por crédito corporativo e imobiliário.

Entendendo os Indicadores Técnicos: Selic, NII e Cost of Risk

Para o investidor sofisticado, é crucial entender a mecânica por trás desses movimentos. A Taxa Selic em patamares elevados tem um efeito duplo: por um lado, encarece o Cost of Funding (custo de captação de dinheiro) dos bancos e aumenta a inadimplência; por outro, pode melhorar a Margem Financeira com o Mercado. No entanto, o indicador chave que os analistas estão observando agora é o NII (Net Interest Income) ou Margem Financeira Líquida, especificamente a ‘Margem com Clientes‘. A expectativa é que, com o início do ciclo de corte de juros (mesmo que lento) e a estabilização da renda das famílias, o spread bancário (diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra para emprestar) se torne mais saudável, com menos perdas para PDD. Outro conceito vital é o ‘Custo de Risco’ (Cost of Risk), que mede a relação entre as provisões para perdas e a carteira total de crédito. A tese de investimento atual baseia-se na premissa de que o Custo de Risco atingiu seu pico e começará a cair, liberando capital para lucros e distribuição de proventos.

O Papel dos Dividendos e Juros Sobre Capital Próprio (JCP)

Historicamente, os grandes bancos são os maiores pagadores de dividendos da bolsa brasileira (B3). Com a recomendação elevada citada pelo InfoMoney, renova-se a expectativa de pagamentos robustos. O Dividend Yield (DY), que é o rendimento do dividendo em relação ao preço da ação, tende a ser atraente nesses níveis de preço. Para o investidor focado em renda passiva, o momento é estratégico: comprar ações de bancos descontados significa travar um Yield on Cost (retorno sobre o custo de aquisição) elevado para o futuro. Além disso, a possível mudança na tributação dos JCP (Juros Sobre Capital Próprio) é um risco regulatório monitorado, mas os bancos têm demonstrado capacidade de adaptação, mantendo sua atratividade como ‘vacas leiteiras’ de dinheiro para os acionistas.

VISÃO DO INVESTIDOR: Estratégias Práticas para o Ciclo Atual

Diante deste cenário desenhado pelos relatórios do Goldman Sachs , o investidor deve posicionar seu portfólio? A estratégia mais prudente envolve uma alocação balanceada. Não se deve ignorar o potencial de valorização do Bradesco (BBDC4), que funciona como uma opção de ‘valor’ com maior risco/retorno, dado o seu desconto excessivo. Se o banco entregar a recuperação prometida, a reavaliação dos múltiplos pode gerar ganhos de capital expressivos, superiores aos do Itaú no curto prazo.

Por outro lado, o Itaú (ITUB4) deve ser a âncora da carteira bancária. Ele oferece a proteção necessária contra a volatilidade, garantindo dividendos recorrentes e menor risco de surpresas negativas nos balanços. Para investidores mais agressivos, o momento pré-balanço pode oferecer oportunidades de trades táticos, aproveitando a volatilidade implícita nas opções ou comprando o papel à vista esperando a confirmação dos dados positivos.

Contudo, é vital monitorar os riscos: uma reaceleração da inflação que force o Banco Central a manter ou subir a Selic, ou uma deterioração fiscal do governo brasileiro, poderiam descarrilar essa tese de recuperação. A diversificação, portanto, não é apenas recomendada, é mandatória. Comparar os múltiplos dos bancos tradicionais com os novos entrantes (Fintechs como Nubank e Inter) também é essencial para entender se o crescimento está precificado corretamente.

CONCLUSÃO E PERSPECTIVAS: O Futuro do Setor Bancário

Em suma, a elevação das recomendações para Itaú e Bradesco antes da divulgação dos balanços, marca um ponto de virada psicológica e fundamentalista para o setor financeiro na B3. Estamos saindo de um período de ceticismo extremo para uma fase de reconhecimento de valor. Os bancos brasileiros, testados por crises sucessivas, provaram mais uma vez sua resiliência e capacidade de gerar caixa mesmo em cenários adversos.

Para os próximos trimestres de 2024 e o início de 2025, a perspectiva é de uma normalização das margens e uma redução do custo de crédito. O investidor que souber ler as entrelinhas destes relatórios e se posicionar antes da consolidação total dessa recuperação poderá colher frutos significativos, tanto via valorização da cota quanto via fluxo de dividendos. O ‘Velho Continente’ financeiro do Brasil ainda tem muito fôlego e continua sendo, indiscutivelmente, o motor de lucros da nossa bolsa de valores.

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