Pela primeira vez desde 2020, no auge da pandemia, as ações da Petrobras fecharam um ano no vermelho. Em 2025, os papéis preferenciais (PETR4) acumularam uma desvalorização de 5,58%, enquanto os ordinários (PETR3) registraram uma baixa de 9,50%. Para muitos investidores, esses números pintam um quadro desanimador.
Mas será que o desempenho negativo das ações conta a história completa? A verdade é que 2025 marcou um ponto de inflexão estratégico, onde a gestão optou por plantar para o futuro em vez de colher os frutos do presente – e o mercado de capitais, impaciente por natureza, reagiu. Ao mergulhar nos fundamentos da empresa, surgem fatos contraintuitivos que revelam os três pontos mais impactantes que a cotação em tela não mostra.
Fato 1: O Paradoxo dos Resultados Robustos
Lucros Bilionários em Meio à Queda
O principal paradoxo da Petrobras em 2025 reside no forte contraste entre o desempenho de suas ações e a solidez de seus resultados financeiros. Embora tenham fechado o ano em baixa, os papéis da companhia chegaram a renovar suas máximas históricas durante o ano, sendo negociados perto de R$ 40 antes de recuarem.
Enquanto o mercado reagia com pessimismo, a performance operacional da companhia contava uma história de resiliência. Nos primeiros nove meses de 2025, a Petrobras apresentou números impressionantes:
- Lucro de R$ 94,6 bilhões.
- Ebitda ajustado de R$ 177,3 bilhões.
- Fluxo de caixa livre de R$ 72,3 bilhões.
Resultados robustos como esses foram alcançados mesmo com a empresa gerenciando um leve aumento em seu endividamento para financiar operações e investimentos. A dívida bruta chegou a US 70,7 bilhões em setembro, uma alta de 3,9%, enquanto a dívida líquida ficou em US 59,1 bilhões, demonstrando capacidade financeira.
O sentimento do mercado se desconectou desses fundamentos não apenas pela queda de quase 20% no petróleo Brent, mas principalmente pela incerteza futura. Os investidores venderam com base na expectativa em torno do novo plano estratégico e o que ele significaria para os dividendos, ignorando a excepcional saúde financeira que a companhia demonstrava no presente.
Fato 2: A Aceleração dos Investimentos
Investindo Mais, Não Menos
Uma queda no preço das ações poderia levar à suposição de que a empresa está recuando em seus planos. Contudo, em uma clara demonstração de sua nova prioridade estratégica, a companhia intensificou seu programa de alocação de capital em projetos de crescimento.
A Petrobras aumentou significativamente seus investimentos (capex), que somaram US$ 14 bilhões no acumulado do ano. Esse valor representa uma alta de quase 29% em relação a 2024. Longe de se retrair, a estatal continuou sua expansão, arrematando novas áreas em campos do pré-sal e avançando no processo para explorar a promissora região da Foz do Amazonas.
Este movimento representa um pivô estratégico deliberado. Em contraste com a estratégia anterior, percebida como focada em reduzir dívidas e maximizar os pagamentos aos acionistas, a gestão atual sinaliza um foco renovado no reinvestimento para garantir o crescimento da produção e a geração de valor a longo prazo.
Fato 3: A Realidade por Trás dos Dividendos
Menos Dividendos Extraordinários, Mas Previsibilidade Mantida
Não há dúvida de que a perspectiva de “dividendos menos generosos” foi um dos fatores que mais pesou no humor dos investidores. A chave, no entanto, é entender a lógica estratégica por trás dessa mudança.
O novo plano para os próximos cinco anos prevê uma distribuição entre R 45 bilhões e R 50 bilhões, um valor “praticamente em linha com o plano anterior”. A diferença crucial, que esfriou o apetite do mercado, foi a ausência da “possibilidade de dividendos extraordinários”. Este ajuste sinaliza um amadurecimento da política de alocação de capital: os lucros excepcionais, antes distribuídos como bônus, agora serão prioritariamente reinvestidos para fortalecer o futuro da empresa, conectando diretamente esta política ao aumento do capex.
Conclusão: O Que o Futuro Reserva?
A história da Petrobras em 2025 é a de uma transição fundamental: de uma máquina de dividendos de curto prazo para uma construtora de valor de longo prazo. A queda das ações reflete a relutância inicial do mercado em aceitar essa nova identidade. Os três fatos se conectam em uma única narrativa estratégica: os resultados financeiros sólidos (Fato 1) forneceram o capital para um ambicioso plano de investimentos (Fato 2), que, por sua vez, exigiu uma política de dividendos mais disciplinada e previsível (Fato 3).
Para o investidor, o dilema está posto. Diante de uma empresa que prioriza o reinvestimento e a sustentabilidade futura, a questão central para o próximo ano é clara: apostar na execução bem-sucedida desta estratégia de longo prazo ou buscar em outros lugares os rendimentos imediatos que a Petrobras decidiu, por ora, deixar em segundo plano?
