A Ilusão do “Número Verde” no Aplicativo
Quantas vezes você abriu o aplicativo da sua corretora ou do seu banco, viu um rendimento de 12% ou 13% nos últimos doze meses e comemorou, sentindo-se um investidor de sucesso? Se você é como a maioria dos brasileiros, a resposta é: muitas vezes.
A Rentabilidade Real no cenário econômico, onde a volatilidade e a inflação continuam sendo protagonistas no noticiário financeiro, entender a diferença entre ganhar dinheiro “no papel” e ganhar poder de compra “na vida real” é o que separa os amadores dos investidores que realmente constroem patrimônio. A rentabilidade real não é apenas uma métrica técnica; é a única medida honesta de enriquecimento.
O Que é, De Fato, a Rentabilidade Real?
De forma simplificada, é o valor bruto que o investimento entrega. Se você aplicou R$ 1.000,00 e resgatou R$ 1.100,00, sua rentabilidade nominal foi de 10%. Porém, o dinheiro é apenas um meio de troca. Se, durante esse mesmo período, os preços dos produtos e serviços (mensurados pelo IPCA, por exemplo) subiram 10%, a sua rentabilidade real foi ZERO.
Você tem mais notas de dinheiro na carteira, sim. Mas você compra exatamente a mesma cesta de produtos que comprava um ano atrás. Você não enriqueceu; você apenas manteve o valor do seu suor. Para haver rentabilidade real, o seu retorno deve superar a inflação.
A Disciplina do Juro Real na Construção da Liberdade
Recentemente, o estrategista financeiro Gean Duarte, da Me Poupe!, trouxe à tona uma discussão vital para este ano de 2026. Segundo ele, mais importante do que o tamanho do seu aporte inicial, é a disciplina e o entendimento profundo do “juro real”.
Duarte argumenta que o ideal é focar em juros reais, e que é o caminho mais seguro para atingir a liberdade financeira. Não adianta buscar investimentos de alto risco que prometem 20% ao ano se a inflação corroer 15% disso e o risco levar o resto. A consistência em buscar ativos que paguem consistentemente acima da inflação (como o Tesouro IPCA+, por exemplo) é a chave.
Para aprofundar nessa visão estratégica, recomendo a leitura completa da matéria no Segs.com.br. A lição aqui é clara: o investidor de 2026 precisa parar de perseguir a rentabilidade bruta e começar a caçar o “spread” sobre a inflação.
Imóveis vs. Inflação: Onde Está o Ganho Real?
O brasileiro tem uma paixão histórica por imóveis. “Quem compra terra não erra“, diz o ditado. Mas será que, em termos de rentabilidade real, isso se sustenta no cenário atual? Uma análise comparativa recente levantada pelo Brazil Journal colocou frente a frente o rendimento dos aluguéis e dos Fundos Imobiliários (FIIs) contra o IPCA de fevereiro de 2026.
A conclusão é que nem todo tijolo é igual. Enquanto alguns contratos de aluguel conseguem repassar a inflação (geralmente via IGP-M ou IPCA), a valorização do imóvel em si nem sempre acompanha o custo de vida, dependendo da região. Já os FIIs de papel, indexados à inflação, tendem a entregar uma proteção mais imediata da rentabilidade real, distribuindo proventos isentos (para pessoa física) que, na ponta do lápis, muitas vezes superam o aluguel físico descontado de vacância e impostos.
Dividendos e ROE: O Caso dos Bancos
Quando falamos de ações, a rentabilidade se torna ainda mais fascinante. Não olhamos apenas para a cotação, mas para os dividendos e a capacidade da empresa de gerar valor acima do custo do capital. Um levantamento do Money Times mostrou que os dividendos pagos por gigantes como Itaú e Bradesco têm superado a inflação com folga no acumulado recente.
Isso significa que o acionista desses bancos recebeu dinheiro em conta que cresceu mais rápido do que o preço da gasolina ou do supermercado. Isso é ganho real de fluxo de caixa. .
Entretanto, precisamos olhar para dentro das empresas. O Bradesco, por exemplo, reportou um lucro líquido de R$ 6,5 bilhões no 4T25, com um ROE (Retorno sobre o Patrimônio) de 15,2%. Embora o número absoluto seja impressionante, especialistas ouvidos pelo Valor Econômico levantam o debate: um ROE de 15,2% oferece uma rentabilidade real atrativa para o acionista se a taxa básica de juros (Selic) estiver próxima a dois dígitos?
O prêmio de risco — quanto a mais o investidor ganha por correr o risco da renda variável em comparação à renda fixa — é estreito. Se a “taxa livre de risco” paga IPCA + 6%, um ROE de 15% pode não ser tão brilhante quanto parece à primeira vista.
O Inimigo Invisível: A Mordida do Leão na Rentabilidade Real
Aqui entramos no ponto mais técnico e, talvez, o mais doloroso deste artigo: o impacto do Imposto de Renda (IR). O investidor brasileiro muitas vezes esquece que o imposto incide sobre a rentabilidade nominal, não sobre a real.
Vamos a um exemplo prático e hipotético para ilustrar o drama:
- Investimento: CDB com rendimento de 15% ao ano.
- Inflação (IPCA): 10% ao ano.
- Alíquota de IR: 20% sobre o lucro.
O investidor incauto pensa: “Ganhei 15%, a inflação foi 10%, tive 5% de ganho real”. Errado.
O governo tributa os seus 15% de ganho nominal.
15% (ganho bruto) – 20% (IR sobre 15%) = 3% de imposto pago.
Sua rentabilidade líquida nominal é de 12%.
Agora, descontamos a inflação de 10%.
Sua rentabilidade real líquida é de, aproximadamente, 1,8%.
Percebeu? A inflação alta combinada com a tributação sobre o nominal é uma máquina de destruir patrimônio. O InvestNews publicou um alerta essencial sobre esse mecanismo perverso, explicando como a “mordida” do Leão reduz o lucro de verdade, especialmente em prazos mais curtos onde a alíquota é maior. É leitura obrigatória: InvestNews.
Conclusão: Como se Proteger?
Como se proteger seu patrimônio em 2026, você deve:
- Buscar Ativos Indexados ao IPCA: O Tesouro IPCA+ e debêntures incentivadas são ferramentas clássicas para garantir um spread fixo acima da inflação.
- Considerar a Isenção Fiscal: LCI, LCA, CRI, CRA e dividendos de FIIs/Ações ganham um peso enorme, pois evitam a tributação sobre a “inflação embutida” no rendimento nominal.
- Fazer as Contas Corretas: Nunca subtraia simplesmente Inflação de Rentabilidade. Use a fórmula correta:
(1 + Rentabilidade Nominal) ÷ (1 + Inflação) - 1.
No Rádio Renda Mensal, nossa missão é clara: queremos que seu dinheiro compre mais sonhos, e não apenas acumule dígitos. Fique atento e pare de se iludir com números nominais.

