A narrativa de que o Bitcoin se tornou apenas um “espelho” das ações de tecnologia americanas tem ganhado força nos corredores de Wall Street e da Faria Lima aqui em São Paulo. No entanto, um relatório recente da NYDIG, uma das maiores empresas de serviços financeiros voltada para ativos digitais, sugere que essa visão é, no mínimo, exagerada. Embora o gráfico de preços possa sugerir uma dança sincronizada, os fundamentos por trás desses movimentos revelam uma realidade muito mais complexa e independente para o mercado de criptomoedas.
Para o investidor brasileiro, entender se o BTC está ou não preso ao destino da Nasdaq é crucial para a montagem de uma carteira de investimentos diversificada. Afinal, se o Bitcoin for apenas um “Proxy” do setor de software, ele perde parte de seu apelo como um ativo descorrelacionado. Mas, segundo Greg Cipolaro, chefe de pesquisa da NYDIG, a convergência estrutural que muitos apontam simplesmente não existe da forma como imaginamos.
O Mito da Convergência Estrutural
Recentemente, observamos o Bitcoin subir em conjunto com gigantes do setor de software e tecnologia. Esse movimento levou analistas a afirmarem que a criptomoeda estaria reagindo aos mesmos estímulos que impulsionam empresas de IA (Inteligência Artificial) ou que compartilham riscos sistêmicos. No entanto, a NYDIG rebate essa tese de forma contundente.
Segundo Cipolaro, o que estamos vendo não é uma fusão de fundamentos, mas sim uma “exposição compartilhada ao atual regime macroeconômico”. Em termos simples: ambos os ativos são sensíveis à liquidez global e às decisões de juros do Federal Reserve (Fed). Quando o mercado antecipa um cenário mais favorável para ativos de risco, tanto o Bitcoin quanto as BDRs de tecnologia, como NASD34 (Nasdaq) ou GOGL34 (Alphabet/Google), tendem a subir. Isso não significa que eles sejam a mesma coisa; significa apenas que estão reagindo ao mesmo vento favorável.
Por que o Bitcoin não age como o Ouro?
Uma das maiores frustrações dos investidores entusiastas da tese de “ouro digital” é o fato de o Bitcoin nem sempre se comportar como um hedge contra o caos macroeconômico. Enquanto o ouro físico costuma brilhar em momentos de incerteza geopolítica extrema, o Bitcoin muitas vezes sofre junto com as ações de risco.
A explicação da NYDIG para isso é comportamental. Os traders parecem estar alocando capital ao longo de uma “curva de risco”. O Bitcoin é posicionado no topo dessa curva. Assim, em momentos de apetite por risco (risk-on), o capital flui para o BTC e para empresas de tecnologia de alto crescimento. Em momentos de medo (risk-off), o capital foge de ambos. Isso cria uma ilusão de correlação que, estatisticamente, explica apenas cerca de 25% dos movimentos de preço da criptomoeda.
Os 75% que Ninguém Está Olhando
Se apenas um quarto do movimento do Bitcoin é explicado por sua correlação com o S&P 500 ou a Nasdaq, o que define o restante? É aqui que reside a verdadeira tese de investimento no ativo. De acordo com a análise, 75% da volatilidade e do crescimento da moeda dourada digital são derivados de fatores endógenos, ou seja, internos ao seu próprio ecossistema.
Esses fatores incluem:
- Halving do Bitcoin: O choque de oferta programado que ocorre a cada quatro anos.
- Adoção Institucional: A entrada de grandes fundos e a aprovação de ETFs de Bitcoin à vista.
- Desenvolvimentos Regulatórios: Mudanças nas leis dos EUA e de outras potências que trazem clareza jurídica.
- Atividade da Rede: O crescimento do uso da rede para transações e novas camadas de tecnologia (como a Lightning Network).
Essa independência fundamental é o que sustenta o papel do Bitcoin como um excelente diversificador de portfólio. Para um investidor no Brasil, que já lida com a volatilidade do Ibovespa e do Dólar, ter um ativo que se move por motivos próprios é um diferencial estratégico.
Adaptação ao Mercado Brasileiro: BDRs e Cripto
Ao olharmos para o mercado americano, falamos muito sobre o índice S&P 500 e empresas de software. Para o investidor local, isso se traduz na performance de ativos como o IVVB11 (que replica o S&P 500) ou BDRs de peso como MSFT34 (Microsoft) e AAPL34 (Apple).
O relatório da NYDIG deixa claro que, embora as correlações estejam elevadas no curto prazo (janela de 90 dias), elas ainda estão longe de determinar o futuro do preço do Bitcoin. Portanto, tratar o BTC como se fosse uma ação da MELI34 (Mercado Livre) ou de qualquer outra empresa de tecnologia é um erro técnico. O Bitcoin possui drivers políticos e monetários que nenhuma empresa de software possui.
Perspectivas para 2025 e 2026
O cenário para os próximos anos sugere que o Bitcoin continuará a amadurecer. Com a entrada de agentes como a BlackRock e a Fidelity no setor, a infraestrutura de mercado está se tornando mais robusta. A NYDIG aponta que, à medida que a clareza regulatória aumenta, a “tese monetária distinta” do Bitcoin voltará a ganhar destaque, possivelmente descolando o ativo dos índices de ações tradicionais em momentos de estresse bancário ou inflacionário.
Para quem busca rentabilidade e proteção a longo prazo, a mensagem é de cautela com narrativas simplistas. O Bitcoin é influenciado pelo macro? Sim. Ele é dependente das ações de tecnologia? As evidências mostram que não.